Uma Introdução ao Galdor
O que é (e o que não é) galdor
Muitos asatruares e usuários das runas hoje têm a concepção equivocada de que galdor (em inglês antigo) ou galdr (em nórdico antigo) se refere ao canto dos nomes das runas. Na verdade, não é isso. Nas línguas antigas — nórdico antigo e inglês antigo — a palavra significava qualquer encanto ou feitiço que fosse cantado.
A palavra galdor vem de, ou se relaciona com, o termo do inglês antigo galan, “cantar”. Os antigos galdras eram feitiços compostos em verso aliterativo, buscando provocar uma mudança. Essa mudança podia ser: localizar gado perdido, curar um osso quebrado, impedir um aborto espontâneo, acalmar um enxame de abelhas — ou qualquer outra coisa.
Em princípio, o galdor podia fazer qualquer coisa que seu praticante pretendesse realizar. Afinal, era magia. Não há razão para que o praticante pagão moderno não possa utilizar o galdor com igual eficácia.
Galdor raramente era usado sozinho
O galdor raramente aparecia isolado. Os exemplos sobreviventes de doze galdres anglo-saxões semi-pagãos ou pagãos que temos também empregam ervas, ações rituais e, em alguns casos, runas (há indícios de que alguns galdres anglo-saxões hoje perdidos também as usavam).
Em geral, os encantamentos de cura pagãos que sobreviveram operam com alguns princípios. O primeiro é um “combate” simbólico (um combate “encenado”) destinado a expulsar o wight (entidade/força) que causava a enfermidade.
Os antigos pagãos anglo-saxões acreditavam (como outros germânicos) que doenças eram causadas, por vezes, por flechas ou dardos disparados por elfos, por venenos voadores, e por dragões (wyrmas) e outras criaturas.
Exemplo: “Contra uma pontada súbita” (Wið Færstice)
Um exemplo clássico de “combate” simbólico é o Encantamento Métrico 4, também chamado “Para uma Pontada Súbita” ou Wið Færstice. Abaixo, uma tradução:
Contra uma pontada súbita: erva-de-santa-maria e urtiga vermelha, a que cresce através de uma casa, e tanchagem; ferva na manteiga. Eles eram barulhentos, eis! barulhentos, quando sobre a colina cavalgavam, E eram ferozes quando sobre a terra cavalgavam. Protege-te agora, para sobreviver a esta violência. Fora, pequena lança, se estás aqui dentro! Eu estava sob a tília, sob um escudo leve, Onde as mulheres poderosas reuniram sua grande força, E enviaram suas lanças gritantes; Eu enviarei outra atrás delas, Uma flecha voando em seus rostos. Fora, pequena lança, se estás aqui dentro! Um ferreiro sentou, forjou uma pequena faca, ???? ferro, maravilhosamente batido. Seis ferreiros sentaram, trabalhando lanças de guerra. Fora lança, não dentro, lança! Se há aqui dentro algo de ferro, Feito por bruxas, que se derreta. Ou foi disparado no sangue, Ou foi disparado num membro, que tua vida nunca seja ferida; Se foi o tiro dos Æsir, ou se foi o tiro dos elfos, Ou foi o tiro das bruxas, eu te ajudarei agora. Isto para te curar de tiro dos Æsir, isto para te curar de tiro dos elfos, Isto para te curar de tiro das bruxas; eu te ajudarei. Corre então ao topo da montanha. Sê inteiro; que o Senhor te ajude. Toma então a faca; mergulha-a no líquido. (tradução por Gavin Chappell)
Neste encanto, primeiro descreve-se o ataque das forças que causam a enfermidade. Depois vem a afirmação (o “brado” do curandeiro) de que ele/ela está lutando contra elas. Por fim, o texto termina com uma sequência de declarações confiantes destinadas a curar a vítima.
Os antigos pagãos entendiam que, se algo era dito em contexto ritual, tinha maior chance de se tornar real. Essa é uma base do galdor. Aqui, o curandeiro declara que a vítima jamais será ferida por certas coisas e que será curada.
O ato de mergulhar a faca pode ser simbólico, como um golpe final contra as forças da doença. A erva-de-santa-maria, a urtiga vermelha e a tanchagem, fervidas na manteiga, provavelmente eram usadas como um unguento para aliviar a dor.
Estrutura: narrativa, potência e cura
Outros encantamentos de cura seguem esse mesmo princípio: uma narrativa no início, seguida por uma afirmação do poder do curandeiro, e encerrando com palavras destinadas a operar a cura. O “Nove Ervas” (Nine Worts Galdor) também conta uma história, ostenta o poder do curandeiro (invocando o nome de Woden), e então usa uma série de declarações para efetivar a cura.
No conjunto, esses encantamentos funcionam de modo semelhante aos “brados” e promessas do symbel. A parte narrativa estabelece o passado; as partes seguintes equivalem a um voto/compromisso de realizar um grande feito — com a diferença de que o curandeiro espera realizar o feito por meio do canto.
Exemplo curto: o Segundo Encantamento de Merseburg
Mesmo encantamentos germânicos antigos bem curtos mostram ao menos duas partes dessa estrutura. Um exemplo é o Segundo Encantamento de Merseburg:
Phol e Wodan cavalgavam para dentro da floresta, Lá o potro de Balder torceu o pé. Foi encantado por Sinthgunt, e sua irmã Sunna; Foi encantado por Frija, e sua irmã Volla; Foi encantado por Wodan, como bem sabia fazer: Torção de osso, como torção de sangue, Como torção de membro: Osso com osso, sangue com sangue; Membro com membro — como se estivessem colados. (tradução por D. L. Ashliman)
Como os galdres mais longos, este encanto conta uma história; porém, ele “pula” a ostentação do poder do curandeiro e vai direto às palavras de cura.
Um modelo acadêmico e um modelo prático
Felix Grendon, no artigo “The Anglo-Saxon Charms” (Journal of American Folk-Lore), descreve a estrutura dos encantamentos como composta de:
- introdução narrativa;
- apelo a um espírito superior; pronúncia de nomes potentes;
- ostentação do poder do exorcista/curandeiro;
- canto das fórmulas sobre partes do corpo e outros objetos.
Porém, esse esquema é difícil de aplicar a todos os encantamentos — e por isso a estrutura em “duas ou três partes” pode se aproximar mais da realidade histórica.
Exceções: quando não há “história”
Nem todo galdor segue o padrão de três partes. Por exemplo, o Encantamento Métrico 9 (“Para Perda de Gado”), um dos mais cristianizados, não se preocupa em contar uma história como os anteriores; ele vai diretamente às declarações que buscam produzir o resultado.
Garmund, servo de Deus, Encontra-me aquele gado, e traz-me aquele gado, E guarda aquele gado, e mantém aquele gado, E traz aquele gado para casa, Para que ele nunca tenha terra onde possa conduzi-los, Nem chão para levá-los, Nem casa para guardá-los. Se alguém fizer este feito, que nunca lhe aproveite! Dentro de três noites eu saberei sua força, Sua força e seu poder, e suas artes protetoras. Que ele definhe por completo, como madeira ressequida pelo fogo, Seja frágil como um cardo, Aquele que pensa em roubar este gado Ou em levar estas vacas. Amém. (tradução por Gavin Chappell)
Aqui, há essencialmente duas partes: primeiro, pede-se a Garmund (um thegn de Deus) que localize o gado; em seguida, vem uma maldição sobre quem o tenha roubado. Isso pode refletir efeitos da cristianização — ou talvez, em forma pagã, fosse mais como uma prece.
Outra exceção é o Encantamento Métrico 11 (“Encanto de Jornada”), fortemente cristianizado. Como envolve o uso de uma vara mágica, talvez pertença a uma classe de galdres que empregam objetos mágicos especiais. É possível que, quando um talismã já preparado era usado junto ao galdor, a primeira seção narrativa pudesse ser dispensada.
Três tipos gerais (visão síntese)
Em linhas gerais, os encantamentos métricos anglo-saxões parecem se dividir em três tipos:
- Tipo 1 (mítico-ritual): (a) conto/tale mitológico; (b) ostentação do poder do curandeiro; (c) palavras de cura sobre a vítima.
- Tipo 2 (prece + objetivo): (a) prece aos deuses ou outras potências; (b) declarações do que se espera alcançar.
- Tipo 3 (objeto mágico): uso de um item mágico; tende a consistir apenas em declarações do resultado desejado.
Praticantes modernos podem usar esses modelos para compor seus próprios encantamentos. Além disso, muitos galdres exigem ações específicas (como mergulhar a faca na água). Para o praticante atual, não deveria ser difícil desenvolver ações rituais simbólicas equivalentes.
Por fim, muitos galdres pagãos foram escritos em verso aliterativo. Aprender essa forma poética pode ajudar a compor encantamentos mais próximos do espírito tradicional.
Leituras adicionais
- Cameron, M. L., Anglo-Saxon Medicine, Cambridge University Press, 1993.
- Flowers, Stephen, Galdrabok: An Icelandic Grimoire, Samuel Weiser, York Beach, Maine.
- Glosecki, Stephen, Shamanism and Old English Poetry, Garland, New York, 1989.
- Grattan, J. H. Grafton; Singer, Charles, Anglo-Saxon Magic and Medicine, Norwood Editions, Norwood, PA, 1976.
- Griffiths, Bill, Aspects of Anglo-Saxon Magic, Anglo-Saxon Books, Norfolk, 1999.
- Jolly, Karen, Popular Religion in Late Saxon England: Elf Charms in Context, University of North Carolina Press, 1996.
- Pollington, Stephen, Leechcraft: Early English Charms, Plantlore & Healing, Anglo-Saxon Books, Norfolk, 2002.
- Storms, Godfrid, Anglo-Saxon Magic, Martinus Nijhoff, The Hague, 1948.